Donata Maria Moraes
Donata Maria Moraes – Uma estrela além do tempo!
“De lá vem vindo, de lá vem só, de lá vem vindo uma força maior”
Vovó Donata, Tia Donata, Dona Dona, ou apenas Dona Donata.
Nascida em 23 de agosto de 1927, irmã de Anisia, Maceda, Miúdo, Apolônio e Brasilino, moradora leal de Passagem dos Teixeira (BA). Mãe de 14 filhos, Vó de uma carretada de netos e netas e bisa de alguns.
Passagem dos Teixeiras, aqui ela nasceu, cresceu e morreu. Território negro, que ela defendia com unhas e dentes, mas marcado pela ausência de acesso a direitos básicos, como: educação, trabalho e saúde. Um território também reconhecido como Engenho Passagem, que durante muitos anos pertenceu ao município de Salvador e, que tinham como principal fonte de renda a venda de cana-de- açúcar – “Ah, esse terreiro era um grande canavial!” Vovó sempre me dizia isso!
Vovó Donata era filha de Ogum e Iansã, mulher guerreira, danada, destemida, discreta, cuidadosa, protetora e imponente. Assim era ela.
Sua relação de fé e amor com os orixás sempre conduziu seus passos e olhares além do tempo. A história de Vovó Donata com os orixás e com o território de Passagem dos Teixeiras sempre foi profunda. De acordo com a história contada pelos mais velhos também foi marcada pela apresentação do terreno, onde hoje está localizada Ilê Asé Oyá Tolá, quando ela exibiu a Tia Deija este espaço. Vovó Donata era amiga e cabelereira de Tia Deija e acabou sendo uma pessoa importante no processo de fortalecimento e criação do Oyá Tolá, que ela cuidava junto com seus filhos quando não havia ninguém.
Ela sempre foi muito sábia, observadora e cautelosa. São tantas memórias sobre a conexão ancestral de Vovó Donata com o Ilê Asé Oyá Tolá. Lembro das obrigações na casa de Exu, que quando criança participava de forma involuntária, ela esteve em diversos momentos a frente, na organização da obrigação.
No barracão, ela esteve responsável durante anos pelas bandeirolas, quantas vezes nós descíamos e passávamos tardes amarrando bandeiras, quando era de plástico, depois passou a ser de papel de seda e estávamos lá, colando bandeirolas com cola de goma. Era responsabilidade dela, mas ela botava a gente pra fazer junto e aprender o cuidado com o espaço sagrado. Ela e dona D’Carmo eram as decoradoras oficiais, a arrumação do baração em tempos de festa era com ela mesmo. Uma passagem importante da conexão ancestral de Vovó Donata com o Ilê Asé Oyá Tolá também era sua relação com o Caboclo Silano, ela era sua fiel escudeira.
Quem a conheceu sabia, como era rígida nos cuidados com a Cabana da Cabocla Jandira, a chave ficava no seu porta joias, sempre na semana de lua cheia de cada mês tinha um ritual de organização até chegar o dia da reunião. Ainda escuto a voz de Vovó: “Pio, já pegou as folhas para o sacudimento.” “Tonico, tem pouca folha.”
Com sol ou chuva, lá estava ela, com sua saia longa, seu casaco e seu saco com tabuas cortadas milimetricamente certas para bater como se fosse palmas, faziam um barulho danado, mas acho que os caboclos gostavam, eles nunca reclamaram.
E assim ela seguia, com as invenções de decoração inovadoras com garrafas pets, bandeiras do Brasil por todo lado, incluía quem estivesse por perto para limpeza, consertos e o que houvesse. Vovó Donata sempre foi uma mulher à frente do seu tempo, com posicionamentos fortes, conselhos assertivos e cuidados as vezes excessivo, mas que nos faz muita falta.
Sempre muito respeitada, bastava passar os olhos para escabrear qualquer ser vivo nessa terra. Com a mão na cintura, falava poucas e boas, te deixava sem argumentos. E quando resolvia te aconselhar, dava aquele velho esporro, com seus dedos magros apontados, com destaque para suas unhas, normalmente feitas e pintadas de marrom com cintilantes rosados (a combinação ficava bacana).
Sempre após as suas reclamações vinha com seu pixote, que a depender do que fosse cada um faria a sua interpretação:
“Não há mata que eu não entre
Não há pau que eu não suba
Não há pássaro que voe
Que a minha flecha não derrube.”
Vovó era incrível! Quem a conheceu sabe bem do que estou falando. Recordo que ela não era muito de bom dia, boa tarde ou boa noite, ela só funcionava com a benção, era a partir desse código de respeito que ela se relacionava com o mundo e nos ensinava todos os dias.
Finalizo, agradecendo a oportunidade e o privilégio de conviver, aprender e agora escrever e lembrar da minha ancestral. A benção, vovó!
Texto de: Érika Francisca.


